A alegria de ter filhos
No último domingo, eu e minha família nos sentamos para assistir ao filme 12 é demais, que conta as aventuras e as confusões de um casal que tem doze filhos.
Durante o filme, é impossível não pensar: “Como conseguem cuidar de tanta gente?”. A casa vive cheia, há barulho por todos os lados, horários que não combinam, brinquedos espalhados, discussões, risadas, preocupações e uma verdadeira operação de guerra para todo mundo sair de casa no horário. Embora aqui em casa não sejam doze, confesso que algumas cenas pareceram bastante familiares.
Quem tem filhos sabe: uma casa com crianças dificilmente fica em silêncio. Sempre existe alguém chamando, perguntando, pedindo água, procurando um brinquedo, reclamando do irmão ou simplesmente contando uma história que, para nós, talvez pareça pequena, mas que para elas é o acontecimento mais importante do mundo. Como meu pequeno Antônio.
Quando o filme terminou, seguimos a rotina da noite. Era hora de colocar as crianças para dormir. E essa tarefa, como os pais conhecem bem, nem sempre é tão rápida quanto parece. Um quer beber água, outro lembra que precisa contar alguma coisa, alguém perdeu o travesseiro, outro diz que ainda não está com sono. Quando finalmente tudo parece resolvido, surge uma última pergunta:
— Pai, você pode ficar aqui comigo? Dormi comigo?
Foi depois desse momento que eu disse à minha esposa:
— Como é bom ter filhos!
Falei de maneira espontânea, mas aquela frase ficou ecoando dentro de mim.
Como é bom ter filhos.
Não porque seja fácil. E não é.
Ter filhos significa aprender a vivermos cansados exaustos algumas vezes. Significa reorganizar os próprios sonhos, abrir mão de certos planos, rever prioridades e descobrir que o nosso tempo já não pertence somente a nós.
Ter filhos é fazer contas, preparar comida, levar à escola, acompanhar tarefas, cuidar quando estão doentes e repetir a mesma orientação tantas e tantas vezes que chegamos a pensar que estamos falando com as paredes.
Mas, mesmo em meio ao cansaço, existe uma alegria que não cabe em explicações.
É a alegria de ouvir a porta se abrindo e alguém correndo para nos abraçar e dizendo: “Papai te amos!!” “Mamãe te amo!!” ou “estava morrendo de saudades de você!!”
É encontrar um desenho feito especialmente para nós.
É perceber uma pequena mão procurando a nossa quando sente medo. Um abraço apertado onde o colo e única proteção que eles têm.
É ouvir uma gargalhada no meio da casa.
É acompanhar os primeiros passos, as primeiras palavras, as descobertas, os erros, as perguntas e o crescimento de cada filho.
Hoje, eu e minha esposa Talita, temos a graça de caminhar ao lado de Francisco, Antônio e da Teresa. Cada um com seu jeitinho, suas qualidades, suas perguntas e suas travessuras, suas dificuldades. Eles enchem nossa casa de movimento e também o nosso coração de amor e esperança. Somo pais de 6 filhos!! 3 no céu, e 3 aqui na terra!!
Helena hoje mora no Céu.
Sua ausência está presente em nossa história. Existem saudades que não passam; elas apenas aprendem a morar conosco. Mas o amor por um filho não termina quando os nossos olhos deixam de vê-lo. O amor continua. Ele atravessa o tempo, atravessa a dor e alcança a eternidade.
Por isso, quando digo que tenho 6(seis) filhos, digo com toda a verdade do meu coração. Três caminham conosco aqui na Terra, e uma intercede por nossa família junto de Deus. Depois da páscoa da Helena, Talita ainda teve duas gravidezes mais teve dois abortos espontâneos.
Helena nos ensinou que cada instante ao lado de um filho é precioso.
Talvez por isso eu perceba de maneira tão intensa a beleza das coisas mais simples: uma refeição em família, uma criança dormindo, uma conversa antes de apagar a luz, um abraço inesperado ou até mesmo aquela bagunça que, no momento, parece nos tirar a paciência.
Falo sempre coma Talita: Um dia, a casa ficará mais silenciosa.
Os brinquedos deixarão de ocupar o chão. As roupas pequenas já não estarão no varal. Não será mais preciso contar histórias antes de dormir nem conferir se todos escovaram os dentes.
Os filhos crescerão e seguirão os próprios caminhos.
Por isso, precisamos aprender a reconhecer a graça escondida no presente. Até mesmo no barulho. Até mesmo na correria. Até mesmo nos dias em que estamos exaustos.
A Palavra de Deus no livro dos Salmos 127, 3: “Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.” E uma herança precisa ser acolhida, cuidada e valorizada. Nossos filhos não são um peso colocado sobre nós. São vidas que Deus confiou às nossas mãos.
Isso não significa que os pais precisam ser perfeitos.
Nenhum de nós é.
Erramos, perdemos a paciência, falamos o que não deveríamos, deixamos de ouvir e, muitas vezes, chegamos ao final do dia pensando que poderíamos ter feito melhor.
Mas os filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais presentes. Pais que reconheçam os próprios erros, que saibam pedir perdão, que rezem com eles e por eles e que continuem tentando amar, mesmo nas limitações.
Naquela noite, depois de assistir a uma família com doze filhos vivendo suas alegrias e confusões, olhei para a nossa própria história com gratidão.
Nossa família também tem suas correrias, suas lutas e suas saudades. Temos dias tranquilos e dias em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Temos risadas, choros, discussões, reconciliações e muito aprendizado.
Mas, acima de tudo, temos um Deus que nos ensina que temos uns aos outros.
E talvez seja exatamente isso que torne a vida tão bonita.
Ter filhos é permitir que o coração passe a caminhar fora do nosso próprio peito. É amar alguém de uma forma que nos torna mais vulneráveis, mas também mais humanos e mais fortes. É descobrir que a felicidade nem sempre está em uma casa silenciosa e perfeitamente organizada. Muitas vezes, ela está justamente naquela casa barulhenta, com brinquedos no chão, copos sobre a mesa e crianças chamando:
— Pai! Mãe!
Como é bom ter filhos.
Como é bom poder cuidar, ensinar, abraçar, corrigir, rezar e crescer junto com eles.
Existe uma grande alegria em ser diácono. Servir à Igreja, anunciar e viver a Palavra de Deus, estar próximo das pessoas e poder testemunhar o Evangelho é uma graça imensa em minha vida, viver sua Diaconia. Mas compreendo, cada vez mais, que minha primeira diaconia acontece dentro da minha casa.
Antes de ser diácono para o povo de Deus, sou esposo da Talita e pai do Francisco, Antônio, Teresa e da Helena. É dentro da minha família que preciso aprender diariamente a servir, amar, perdoar, escutar, proteger e entregar a própria vida ou seja exercer minha diaconia. Porque há maior alegria em dar do que receber Atos 20,35.
Minha estola começa dentro de casa.
Minha primeira comunidade é minha família. Meu primeiro altar é o nosso lar. E minha primeira missão é ajudar minha esposa e meus filhos a caminharem para Deus, enquanto eles também me ajudam a buscar a santidade. Não somos uma família perfeita. Temos nossos limites, nossas lutas, nossas correrias e nossas saudades. Mas caminhamos unidos por um mesmo desejo: sermos santos.
Queremos viver de tal forma que, ao final desta caminhada, possamos estar todos juntos no Céu. Queremos chegar à casa do Pai e reencontrar nossa Helena, que hoje já mora na eternidade.
“Nossa Santa Helena de Pádua!!”
Ela permanece presente em nossa história, em nossas orações e em nosso amor. E nos recorda, todos os dias, que a família não foi criada apenas para permanecer unida nesta vida, mas para caminhar unida em direção ao Céu.
Por isso, mesmo quando a vida nos separa por algum tempo, o amor continua nos mantendo unidos. Até o dia em que nossa família estará novamente completa, na casa do Pai.
Deus o abençoem!!
Diacono Higor Eccard
Diacono da Paroquia Nossa Senhora das Graças e São Padre Pio de Pietrelcina