Jesus Denuncia para Salvar

Na meditação doutrinária de quarta-feira (13/08/2025), o Sumo Pontífice Leão XIV, inspirado nos ensinamentos de Jesus Cristo sobre a traição de Judas, convida-nos à reflexão: “Não é o grito do culpado, mas o sussurro daquele que, mesmo desejando amar, reconhece a possibilidade de causar dano. É nessa compreensão que se inicia o Caminho da Salvação.”

Diác. Adelino Barcellos Filho – Diocese de Campos/RJ.

O Sumo Pontífice exortou que Jesus Cristo, “ao deparar-se com o mal, não busca vingança, faz manifestar a tristeza, exame de consciência: ‘porventura, sou eu?’ (Mateus 26) e ademais, “esta é a esperança: ter a certeza de que, embora possamos falhar, Deus jamais falha. Mesmo que possamos trair, Ele nunca cessa de nos Amar. E se nos permitirmos ser alcançados por esse amor — humilde, ferido, mas sempre fiel”.

Jesus, em Sua sabedoria e amor infinitos, não aponta falhas com o intuito de humilhar, mas sim com um propósito maior: o de Salvar. Cada denúncia, cada advertência, constitui um convite à reflexão e à mudança, uma mão estendida para resgatar o indivíduo do abismo e conduzi-lo de volta à Luz. Ele enxerga a alma por trás do erro e compreende que a correção fraterna é um ato de misericórdia, embora atualmente seja rara, visto que, em geral, muitos não desejam se comprometer.

É inquestionável que o mal existe e atua no mundo, manifestando-se em suas diversas formas e matizes. Ele representa uma força real, capaz de gerar profunda tristeza e de nos confrontar com as consequências de nossas escolhas. Contudo, é imperativo compreender que, por mais devastador que o mal possa parecer, ele jamais proferirá a palavra final. A esperança e a redenção sempre prevalecerão para aqueles que se abrem à Graça.

O Concílio Vaticano II ressalta o livre arbítrio na escolha entre o bem e o mal, exemplificando a traição de Judas como um ato de escolha própria, e não como predestinação. Ainda que a traição de Judas represente um evento negativo, o Concílio Vaticano II ressalta a imperatividade da conversão e do perdão. A Igreja é concebida como um espaço de acolhimento e reconciliação, onde todos são convocados à busca da salvação.

Embora os evangelhos canônicos revelem o remorso de Judas, eles não registram um arrependimento sincero e um retorno a Jesus. Alguns teólogos, como o Papa João Paulo II, afirmam que Judas se arrependeu, mas não buscou o perdão de Jesus, optando por resolver a situação individualmente. A figura de Judas serve como um exemplo de como o ser humano pode resistir à Graça divina e escolher o caminho da traição e do pecado.

A angústia advinda do mal serve como um doloroso lembrete: ao nos rendermos a ele e persistirmos em trilhas sombrias, comprometemos seriamente nossa salvação. A alma, ferida e distante da essência divina, anseia por um retorno. Este sofrimento, embora aflitivo, pode atuar como um catalisador para a transformação, um alerta que nos impulsiona à busca pela cura e reconciliação.

A Constituição Apostólica Lumen Gentium, no capítulo dois – parágrafo nove nos instrui que, “este povo messiânico, liderado por Cristo, o qual foi entregue e ressuscitado para nossa justificação (Romanos 4,25), e que presentemente reina gloriosamente nos céus, detém a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, com o Espírito Santo a habitar em seus corações como em um templo”.

Sua lei é o novo mandamento de amar como Cristo amou (João 13,34). Seu propósito é o Reino de Deus, iniciado na terra e a ser consumado no fim dos séculos, quando Cristo, nossa vida, se manifestar (Colossenses 3,4) e a criação for libertada da corrupção (das “30 moedas”) (Romanos 8,21).”

Conquanto não abranja todos os homens e frequentemente se assemelhe a um pequeno rebanho, este povo messiânico constitui a mais sólida semente de unidade, esperança e salvação para toda a humanidade.

Estabelecido por Cristo como comunhão de vida, caridade e verdade, é igualmente instrumento de redenção universal e enviado como luz do mundo e sal da terra” (Mateus 5, 13-16). Mesmo que, dentre as diversas manifestações do mal, a traição se sobressaia por sua capacidade de infligir uma dor particularmente aguda e profunda.

A ruptura da confiança, a violação de um vínculo de lealdade, deixa marcas de difícil erradicação. A traição não apenas lesa a vítima, mas também macula o relacionamento, legando um rastro de amargura e desilusão. Trata-se de um ato que desfaz pontes e ergue barreiras, evidenciando a fragilidade da confiança humana quando confrontada com a obscuridade da deslealdade.

Para Agostinho, o Amor de Cristo, manifestado na encarnação, paixão, morte e ressurreição, é central para a fé cristã. Ele via esse amor como transformador, libertando do pecado e levando à santidade, com o perdão divino sendo a maior expressão. Agostinho defendia que o amor a Deus e ao próximo são inseparáveis e conduzem à união com Deus. A traição egoísta de Judas, uma escolha livre, contrasta com o amor de Cristo, mostrando as consequências de se afastar do amor divino pelo livre-arbítrio.

Santo Agostinho analisa o conflito entre amor altruísta e egoísmo, mostrando que a traição ocorre quando o ego domina o Amor. Ele prega a conversão para que se retorne ao Amor e à Graça divina, crendo que o Amor de Cristo cura a traição e o pecado, pois a minha e a sua condição de pecador(a) não nos dá o direito de pecarmos, restaurando a harmonia entre Deus e a humanidade.

É possível asseverar que a exploração da relação entre o Amor de Jesus Cristo e a traição de Judas exemplifica, de forma prática, a relevância do Amor divino, a essência do livre-arbítrio humano e a imperatividade da conversão à Vontade do Pai, visando à consecução da genuína Paz e Felicidade em Deus.

Senhor, Pai amado, Pai querido de toda a criação, capacita-nos, Teus ministros (que receberam o Sacramento da Ordem), a serem pastores de corações. Que nossa missão não seja impor regras vazias, mas refletir Tua compaixão e amor. Que nossas palavras e ações guiem e curem, espelhando a Graça do Evangelho. Ajuda-nos a entender que o verdadeiro ministério é cuidar de Almas, edificar relacionamentos e apontar para a Salvação, vivendo as Vossa doutrina que pregamos.

Que Tua Palavra e Espírito nos guie, priorizando a transformação interior e a restauração de vidas, não a preceitos vazios. Que nossa pregação seja viva e nosso testemunho, um convite à Fé de Jesus Cristo. Concede-nos a verdadeira humildade e sabedoria, sem fingimento. Que sejamos instrumentos de paz e justiça, como prática da misericórdia, focados em aproximar Teu povo de Ti, não de regras. Que nossa vida e obra reflitam Tua glória, para que corações sejam transformados por Teu Amor.

Que a Vossa Mãe de Amor e de Bondade, possa nos proteger! Amém.

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