2025 – Jubileu das Conexões de Esperança: a Cruz de Cristo e o Martírio

Na homilia de 14 de setembro de 2025, o Papa Leão XIV, na Basílica de São Paulo Extramuros, agradeceu a presença dos irmãos ortodoxos, destacando a cruz de Cristo como “esperança dos cristãos” e “glória dos mártires”. Ele afirmou que o martírio até a morte é “a comunhão mais verdadeira que possa existir com Cristo” (Carta encíclica Ut unum sint, 84).

Diác. Adelino Barcellos Filho – Diocese de Campos/RJ.

A Cruz de Cristo é um sinal, um símbolo de esperança, revelação do supremo Amor de Deus por nós que se entrelaça com o conceito de martírio. Ela demonstra que o sofrimento não é um fim último, mas uma passagem para a ressurreição, transformando a dor em salvação e comunhão com Ele, que afirmou: “Eu sou a porta” (João 10, 9).

O martírio representa a máxima expressão do discipulado de Jesus (ser “trigo de Deus” – Inácio de Antioquia). A Santa Missa, o único e eterno sacrifício, presença salvífica do Corpo Sangue Alma e Divindade de Jesus Cristo, onde a existência é oferecida por confiança plena, não em desespero, mas com a convicção da Eternidade Feliz prometida pela Cruz, na conversão e sincero arrependimento: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23, 43).

Nesse sentido, a cruz emerge como um símbolo de esperança que inspira a doação da própria vida, mesmo em meio à adversidade e à angústia. A Cruz como símbolo de esperança e transformação do sofrimento. A cruz, que outrora foi um instrumento de vergonha pública, de opressão e morte, adquire um novo sentido no cristianismo: o de verdadeira libertação e esperança.

A ressurreição de Cristo não invalida a cruz, mas lhe confere uma significação mais profunda, transmutando o sofrimento em um percurso para a eternidade. Um facho de luz na obscuridade, mesmo nos instantes mais sombrios, a cruz serve como um lembrete de que a luminosidade pode emergir, e que a esperança subsiste em todas as conjunturas. O martírio pode ser interpretado como um corolário da esperança (coroa da vitória).

Na perspectiva da imitação de Cristo, o martírio representa a expressão máxima do seguimento de Jesus, onde o cristão se une aos sofrimentos de Cristo, espelhando sua vida e morte até a ressurreição. Uma entrega e confiança com alegria são notáveis, pois os primeiros mártires cristãos enfrentavam a morte com júbilo, certos de que, ao entregar suas vidas, seriam integrados à participação nos sofrimentos e na glória da ressurreição de Cristo, tinham em si a ‘marca da vitória’.

Como o mais elevado sinal de Testemunho Cristão, o martírio configura-se como o testemunho máximo da Fé de Jesus Cristo, onde o cristão vivencia a mensagem da cruz até o seu término, revelando a todos a potência salvífica do Amor de Cristo. A Cruz e a Esperança em nossas realidades eclesiais e pessoais não se restringem meramente ao sofrimento de Jesus, mas compreendem o sofrimento unido ao seu povo da Nova e Eterna Aliança, em Seu Sangue. (Lucas 22, 20; Marcos 14, 24; e Mateus 26, 28).

A Fé de Jesus Cristo, bem como a Oferenda de Si mesmo, foi demonstrado através de seu “grito” na cruz, que, em vez de ser um sinal de fraqueza e abandono, representa a entrega total da Vida, do Amor e da Esperança. Um clamor que do alto da cruz pôde ser uma forma extrema de oração, um protesto, e o ápice da entrega e da esperança, para a plenificação e recondução de toda a Criação: “Eli, Eli, lammá sabacthani” (incondicional entrega de Si).

A morte de Jesus é intrinsecamente ligada à totalidade de sua vida. Consequentemente, é indissociável das perseguições e conflitos que a precederam; dos critérios, escolhas e posturas adotadas por Jesus; e do conteúdo de sua pregação. Ao revelar o Deus verdadeiro, Jesus questionou a decadência religiosa e as distorções manipuladoras do discurso oficial sobre a divindade.

Publicamente priorizou os pobres e pecadores em sua solicitude “Vai e não tornes a pecar” (João 8,11); combateu os ídolos de sua sociedade; e confrontou seus falsos valores, desencadeando assim o conflito que culminou em sua crucificação. Para o cristão, o sofrimento – ou seja, as cruzes da vida – constitui a sequela coerente do seguimento fiel de Jesus Cristo, que é fiel à Sua própria Liberdade.

Frequentemente, certa ‘devoção cristã’ dissociou a cruz do restante da vida de Jesus. Isso resultou na separação da cruz da cotidianidade da vida cristã. Na verdade, ela está sempre presente, uma vez que seguir Jesus implica tornar-se interpelação e contradição em meio ao mundo: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lucas 9, 23).

Em seu aspecto sombrio e negativo, a cruz nos ensina que o mal estará sempre presente enquanto perdurar a história. Por mais que o combatamos, ele sempre reaparecerá de novas maneiras. Sua persistência é uma trágica realidade. Sua oposição aos valores do Reino de Deus é constante. Por conseguinte, é capaz, hoje como sempre, de ocasionar à Igreja de Jesus Cristo e à Sua missão duros fracassos e contra testemunhos: ‘maldosos pastores e bodes’, dentro e fora da hierarquia.

A cruz nos ensina que a conversão do mundo abrange a dimensão profunda de uma luta contra o mal (o pecado), atualmente manifestado em formas concretas: o poder pelo poder, a corrida armamentista, todas as modalidades de ameaças contra a vida, a deturpação do amor e da família, a exploração do ser humano pelo ser humano, a fome e a miséria como arma de guerra, o materialismo e todas as configurações de injustiça, a agressão à natureza e ao planeta, as quais colocam em risco mortal o futuro da vida.

A Paixão e Morte de Jesus de Nazaré, encarnação da inocência, da pureza e do bem, remete-nos atualmente à contínua crucificação dos inocentes e justos da terra, dos fracos, dos pobres e dos desamparados. Por intermédio da cruz, a Paixão de Cristo reflete a paixão do mundo, e a paixão do mundo, por sua vez, é a Paixão de Cristo. Essa afirmação, embora possa parecer redundante, não o é.

O paradoxo reside no fato de que a cruz também representa um sinal decisivo de esperança. Apesar da manifestação do mal, a cruz se sobrepõe a ele como um indício irrefutável da vinda do Reino, que é o próprio Cristo, de sua eficácia e de sua vitória derradeira sobre todas as formas de transgressão e agressão moral.

Para que o mal seja superado, pois todos somos maus (Mateus 7,11), impõe-se a redenção (concessão do perdão dos pecados e da Eternidade Feliz). Os meios humanos revelam-se incapazes de extirpar as raízes de todos os males e injustiças. O sofrimento e as cruzes inerentes à vida cristã incorporam o padecimento dos discípulos à perseguição e ao martírio do Mestre, Jesus de Nazaré, ao mesmo tempo em que promovem o desapego e a libertação das tramas diabólicas.

Deste modo, “completamos o que falta à paixão de Cristo em benefício de seu Corpo, a Igreja” (Colossenses 1, 24).

Senhor Jesus Cristo, escutai nosso clamor: nossos corpos e almas encontram-se fragilizados e exaustos, subjugados pelo pecado. Suplicamos perdão, cobri-nos com Vosso sangue e ajudai-nos a extinguir desejos pecaminosos. Concedei-nos força, paciência, alegria, paz, conforto e esperança. Agradecemos Vosso sacrifício e dedicação, que nos renovam sempre em Vosso precioso sangue.

Caia sobre nós o Vosso precioso Sangue, suplicamos que fortaleça a vontade do Papa Leão XIV em Vossa Vontade, e da mesma forma, a de cada Bispo, Presbítero e Diácono. Que cada consagrado Vosso, obedeça a ordem de Maria Santíssima, a única Mãe da esperança (de pé – junto a Cruz de seu Filho), e busque incessantemente a Santíssima Vontade do Pai.

Transformai, Senhor Jesus, o meu cérebro no Vosso Cérebro, o meu corpo no Vosso Corpo, o meu sangue no Vosso Sangue, para que o meu coração seja transfigurado e reconheça, cada vez mais, no quotidiano desta breve existência, a Vontade do Pai, sob a moção do Espírito Santo. “Fica conosco Senhor, porque já é tarde e o dia declina” (Lucas 24, 29).

Mãe das Dores morais e mortais, rogai por nós que recorremos a Vós. Assim seja!

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