A GUERRA TERMINOU?

Pe. Marcelo Campos da Silva D’Ippolito – Diocese de Nova Friburgo

Acordei com essa provocação passando no meu pensamento e observei que, de fato, existem perguntas que não nascem da curiosidade, mas da experiência da alma. “A guerra terminou?” é uma delas.

À luz da fé, a resposta que a história da Igreja nos oferece é ao mesmo tempo sóbria e esperançosa: não, a guerra ainda não terminou. Desde o seu nascimento no lado aberto de Cristo, a Santa Igreja peregrina atravessa os séculos marcada por combates visíveis e invisíveis: perseguições externas, heresias, divisões internas, escândalos humanos, choques culturais, incompreensões do mundo e, sobretudo, a permanente luta espiritual entre a luz do Evangelho e as sombras que desejam obscurecê-la.

A Esposa de Cristo sempre caminhou entre feridas e glórias. Dos mártires dos primeiros séculos às tensões doutrinais dos concílios, das investidas contra a dignidade da pessoa humana aos ataques contemporâneos contra a fé, a Igreja jamais conheceu um tempo de repouso absoluto. E, no entanto, justamente nesses campos de batalha da história, ela se revelou mais nitidamente sacramento de salvação, sinal de contradição e arca de unidade para os povos.

Ao contemplar os meus 25 anos de Ordenação presbiteral, percebo com ainda maior nitidez que os combates espirituais nunca cessaram. Mudam os cenários, mudam as linguagens, mudam os instrumentos da oposição, mas permanece a mesma tensão entre o Reino de Deus e as forças que lhe resistem.

Quantas vezes o ministério sacerdotal se tornou lugar de vigília, resistência interior, discernimento e abandono confiante à Providência! A guerra do sacerdote não é travada com armas humanas, mas com a fidelidade ao altar, à Palavra, ao confessionário, à direção das almas e ao silencioso martírio da perseverança.

Ao longo desses anos, compreendi que toda verdadeira fecundidade pastoral nasce, muitas vezes, do combate suportado em oração. A batalha mais decisiva não acontece diante dos olhos do mundo, mas no coração daquele que escolheu permanecer de pé junto à cruz, mesmo quando tudo parece silêncio de Deus.

Por isso, torna-se cada vez mais claro que tais combates só terão fim na vinda definitiva e gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele mesmo enxugará toda lágrima, dissipará toda sombra e estabelecerá plenamente o Reino que já germina no tempo.

Os acontecimentos recentes apenas confirmam essa verdade perene. As críticas dirigidas ao Papa Leão XIV pelo presidente da maior potência do planeta reacenderam, no cenário contemporâneo, a antiga tensão entre o poder temporal e a voz profética da Igreja. Segundo amplos relatos da imprensa internacional, o presidente Donald Trump atacou publicamente o pontífice por sua insistência na condenação da guerra e na defesa da paz, chegando a desqualificar sua postura diante dos conflitos internacionais.

Entretanto, aquilo que poderia ter se tornado apenas mais um episódio de hostilidade converteu-se, pela graça de Deus, em um poderoso apelo à comunhão eclesial.

Em tempos de perseguição, a Igreja reencontra a força de sua identidade mais profunda: a unidade. Quando o sucessor de Pedro é atingido, o Corpo inteiro sente a dor; mas é precisamente nesse sofrimento compartilhado que se renova a consciência de que somos um só povo, uma só fé, um só Senhor.

A resposta do Santo Padre, longe de qualquer revide, ressoou com a autoridade serena dos verdadeiros pastores: “A minha mensagem continua sendo a paz.” Tal reafirmação ecoa o coração do Evangelho e o próprio magistério recente de seu pontificado, profundamente marcado pela rejeição da idolatria do poder e pela insistência no diálogo entre os povos.

Eis a grande lição espiritual: a guerra ainda não terminou, mas tampouco terminou a missão da Igreja. Enquanto houver ódio, ela proclamará a caridade; enquanto houver mentira, ela guardará a verdade; enquanto houver violência, ela repetirá, com Cristo Ressuscitado: “A paz esteja convosco.”

Portanto, a pergunta inicial não deve nos conduzir ao medo, mas à vigilância esperançosa. A guerra prossegue, sim, porém a vitória já foi semeada na Páscoa do Senhor. O combate do tempo presente é sustentado pela certeza escatológica de que o Cordeiro venceu. Até lá, resta-nos permanecer firmes, unidos e orantes, certos de que nenhuma perseguição será maior do que a fidelidade de Deus à sua Igreja.

Pároco da paróquia Nossa Senhora, da Conceição- Rio das Ostras/RJ

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