​Eis que estou no meio de vós como aquele que serve: São Lourenço, a doutrina social e a missão do diácono permanente hoje

​Diácono Demir Moraes Cabral   – Diocese de Campos

​A identidade e a missão da Igreja fundamentam-se no próprio Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (cf. Bíblia Sagrada, Mateus 20, 28). No Evangelho segundo São Lucas, Jesus deixa registrado o coração do seu ministério e a chave hermenêutica para todo ministério ordenado ao proclamar: “Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (cf. Bíblia Sagrada, Lucas 22, 27). É dessa fonte inesgotável da doação de Si mesmo que jorra a graça do sacramento da Ordem no grau do Diaconato. Conforme ensina a Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 29) do Concílio Vaticano II (1964), o diácono não é ordenado para o sacerdócio presbiteral, mas para o serviço (ad ministerium), encontrando sua configuração ontológica em Cristo-Servo para tornar visível e atuante na comunidade a dimensão do cuidado, da escuta e da caridade evangélica.

​Ao contemplar a Tradição eclesial, a figura de São Lourenço, diácono e mártir romano do século III, surge como um farol perene para o diaconato de todos os tempos. Diante da perseguição romana, ao ser coagido pelo prefeito a entregar as riquezas da Igreja, Lourenço reuniu os pobres, os doentes, os órfãos e as viúvas, proclamando corajosamente: “Eis aqui os verdadeiros tesouros da Igreja”. Como analisei em O Múnus da Diaconia da Caridade com a Práxis do Evangelho na Pessoa Encarcerada à Luz da Doutrina Social da Igreja (CABRAL, Demir Moraes, 2023), São Lourenço demonstrou que o zelo pelos bens materiais só ganha sentido autêntico quando estes são inteiramente colocados a serviço do Povo de Deus, revelando-se um verdadeiro doutor da doutrina da caridade e defensor da unidade. Essa dimensão é amplamente respaldada pelos Padres da Igreja: Santo Inácio de Antioquia (século II), em sua Carta aos Tralianos (3, 1), exortava que todos respeitassem os diáconos como a Jesus Cristo; Santo Policarpo de Esmirna (século II), na Carta aos Filipenses (5, 2), sublinhava que os diáconos devem ser irrepreensíveis na justiça como servos de Deus; e São João Crisóstomo († 407), em suas Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, destacava o vigor do serviço diaconal tanto na liturgia do altar quanto na assistência direta aos necessitados, enxergando neles os braços caridosos da comunidade local.

​Após séculos restritos a uma etapa transitória, o Diaconato Permanente foi restaurado pelo Concílio Vaticano II (Lumen Gentium, n. 29, 1964) e aprofundado pelo Magistério dos Pontífices. O Papa São Paulo VI, na Carta Apostólica Sacrum Diaconatus Ordinem (1967), regulamentou o restabelecimento do ministério como elo vivo entre a liturgia e a vida cotidiana. O Papa São João Paulo II, na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis (1987), reforçou o valor dos diáconos casados e a missão do diaconato como lembrete constante da vocação servidora da Igreja. O Papa Bento XVI, na Carta Encíclica Deus Caritas Est (2005), recordou que o serviço da caridade (diakonia) pertence à essência íntima da Igreja tanto quanto a proclamação da Palavra e a celebração dos Sacramentos.

Por sua vez, o Papa Francisco, em seu Discurso aos Diáconos Permanentes da Diocese de Roma (2021), exortou os diáconos a serem “guardiões do serviço” e sentinelas nas periferias existenciais.

​Essa caminhada eclesial manifesta seus frutos de forma concreta no solo fértil da Diocese de Campos dos Goytacazes. No contexto do Primeiro Sínodo Diocesano de Campos, iniciado em 2013, o Bispo Diocesano Dom Roberto Francisco Ferrería Paz profetizou que as terras de Campos estavam férteis e prontas para a colheita. Como destaquei no artigo A Luz do Santíssimo Salvador (CABRAL, Demir Moraes, 2026), ao olhar para a sucessão apostólica dos bispos antecessores que prepararam o caminho para Dom Roberto, percebe-se que a colheita dessas vocações é o resultado de uma semeadura contínua de fé e dedicação. O Salmista nos ensina que o Senhor cuida do Seu campo com amor paternal (cf. Bíblia Sagrada, Salmo 80); assim também ocorre com as vocações, de modo que o diaconato permanente na Diocese de Campos é guardado e cultivado como a menina dos Seus olhos, para que a Igreja seja cada vez mais servidora, amorosa e protetora de todos.

Torna-se cada vez mais nítido e evidente que o diaconato permanente na diocese possui um rosto próprio: o rosto compassivo, humano e atuante do Cristo Servidor no meio do povo.

​A ação do diácono articula-se no tríplice múnus evangélico, em estrita harmonia com as diretrizes da Congregação para o Clero e do Compêndio da Doutrina Social da Igreja (PONTIFÍCIO CONSELHO “JUSTIÇA E PAZ”, 2005). No Múnus da Palavra (Munus Docendi), o diácono anuncia o Evangelho integrando os pilares da dignidade humana, do bem comum, da solidariedade e da subsidiaridade, denunciando as injustiças e as estruturas de pecado. No Múnus da Liturgia (Munus Liturgicum), ele apresenta no altar as dores e as esperanças da comunidade, conectando a Eucaristia à missão transformadora no mundo, como exorta a Evangelii Gaudium do Papa Francisco (2013). No Múnus da Caridade (Munus Pascendi / Caritatis), núcleo vivo da diaconia, ele exerce a opção preferencial pelos pobres e marginalizados (cf. Bíblia Sagrada, Mateus 25, 31-46), superando a simples filantropia e unindo a fé professada à práxis social libertadora.

​Exercer o diaconato permanente na sociedade contemporânea traz desafios marcantes. Os diáconos atuam como pontes eclesiais nos ambientes seculares, empresariais e acadêmicos onde o clero habitualmente não consegue estar presente no dia a dia. Ao vivenciarem a riqueza do Sacramento do Matrimônio e do Sacramento da Ordem, eles testemunham a beleza da dupla sacramentalidade, santificando a vida familiar e o trabalho profissional em meio à praça pública, em consonância com a Encíclica Caritas in Veritate de Bento XVI (2009). Firmados no exemplo de São Lourenço e sob a proteção do Mestre, os diáconos seguem edificando uma Igreja viva, acolhedora e servidora no coração do mundo.

​Diácono Demir Moraes Cabral

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