Jesus e a ecoteologia integral
Márcia Eloi Rodrigues – Professora
Jesus, em sua pregação e ensinamentos, refere-se com frequência a elementos da natureza e do meio ambiente. Em seus ensinamentos, além da temática do Reino de Deus, podemos também encontrar uma proposta para a vivência de uma espiritualidade encarnada, ecológica e comprometida com a vida em todas as suas formas. Assim, ele se apropria de linguagem sapiencial para enriquecer seus ensinamentos sobre os diversos âmbitos da vida. Aponta para os pássaros do céu e os lírios do campo (Mt 6,26-30) para falar sobre confiança em Deus e despreocupação com as ansiedades da vida; compara o coração humano a diferentes tipos de solo, na parábola do semeador (Mt 13,3-9), usando a metáfora para a receptividade à Palavra de Deus; emprega a imagem da figueira que não gera frutos (Lc 13,6-9) para ensinar a seus discípulos acerca do arrependimento humano e julgamento divino. Esses e muitos outros trechos dos evangelhos exemplificam o quanto Jesus estava conectado à natureza e ao meio ambiente a ponto de relacioná-los à vida das pessoas. Em um desses momentos de pregação, Jesus sobe à Montanha para ensinar às multidões acerca do mistério do Reino do Céus, num cenário que nos lembra as teofanias do Antigo Testamento, onde Deus se revelava ao seu povo em toda a sua grandeza. E não faltam imagens da natureza para descrever a manifestação divina.
Bem, no contexto do Sermão da Montanha (Mt 5-7), vemos Jesus ensinar sobre o apego ao dinheiro (Mt 6,24-34). Nesse discurso, Jesus adverte seus ouvintes sobre o perigo de servir a dois senhores: a Deus e ao Dinheiro. Então, ele exorta seus ouvintes a não ficarem preocupados com o que vão comer ou o que vão vestir, e lhes dá como exemplo contemplar as obras da Criação: “Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que estes? […] Aprendei dos lírios do campo, como crescem. Não trabalham, nem fiam e, no entanto, eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só dentre eles” (Mt 6,26-29). Jesus emprega essas imagens da fauna e da flora para convencer seus ouvintes a terem confiança em Deus, e a se libertarem das angústias da vida, para buscarem, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça.
O exemplo que Jesus dá revela seu relacionamento profundo e respeitoso com a Criação. Que o principal nessa vida não é buscar prover desenfreadamente seu sustento, mas ajustar-se à vontade de Deus, que é bondoso e generoso para com seus filhos. Assim como Deus criou essa Casa Comum, com todos os seus habitantes, e deles cuida com zelo, não cuidaria também de seus filhos? Essa imagem desloca o ser humano de uma atitude solipsista e o integra a sua origem relacional, junto aos pássaros e flores do campo, junto à natureza que o cerca. É, pois, dessa imagem da Criação, em sua unidade relacional, que Jesus tira sua inspiração para falar da providência de Deus para com seus filhos.
Ao falar dos pássaros, os compara com as atividades humanas: “não semeiam, não colhem, não ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste os alimenta” (v. 26). São atividades que correspondem ao trabalho humano para produzir o alimento. E em nenhuma dessas atividades os pássaros precisam se ocupar para se alimentar, pois o próprio Deus provê seu alimento. A pergunta, no final: “Ora, não valeis vos mais do que eles?”, reforça essa ideia da providência divina. Assim como Deus cuida das aves que povoam o céu, provendo seu sustento, quanto mais não faria com seus filhos, que valem muito mais.
A mesma comparação é feita com os lírios do campo, “como crescem, e não trabalham nem fiam” (v. 28). E Jesus assegura que nem Salomão em toda a sua glória, se vestiu como um deles. E, novamente, assegura que da mesma forma que Deus veste a erva do campo com tanto esplendor, embora dure tão pouco tempo, não faria muito mais por seus amados filhos?
Jesus contempla a natureza e nela vê a mão generosa de Deus, que alimenta os pássaros e veste os lírios do campo. Da mesma forma, propõe a seus ouvintes contemplarem a natureza não como um cenário neutro, mas como testemunho do cuidado amoroso de Deus. Isso nos inspira a ter esse olhar amoroso à nossa Casa Comum, sabendo que Deus cuida tanto da natureza, dos animais, das plantas, quanto cuida de nós, seus filhos amados. Da mesma forma com que somos cuidados por Deus, devemos também cuidar da nossa Casa Comum, com generosidade e amor, confiando-se a Deus. Mas não só isso!
Jesus nos adverte a buscar o Reino de Deus e sua justiça. Isso significa cuidar dos irmãos e irmãs necessitados, para que não lhes falte o alimento e a veste. Significa ajustar-se à vontade de Deus que é generoso para com seus filhos e, da mesma forma, nós devemos ser para com nossos irmãos e irmãs. Buscar a justiça do Reino não está dissociado do cuidado da Casa Comum. A crítica que Jesus faz ao “Dinheiro” (Manomás) como senhor, em oposição a Deus, nosso Senhor, nos leva a refletir o quanto o apego ao dinheiro consequentemente pode nos levar à exploração desenfreada tanto dos recursos naturais quanto da mão-de-obra humana, o que contrasta com o chamado de Jesus para servir a Deus. A busca pela justiça de Deus é, também, um chamado para a justiça social e ecológica, no qual o discípulo de Jesus reconhece que todos os seres vivos, humanos, animais, vegetais etc. têm seu valor e devem ser tratados com dignidade e respeito. É o que nos ensina Jesus, a observar na Criação a revelação da graça e da providência de Deus, ou seja, uma ecoteologia integral.
Márcia Eloi Rodrigues é professora e pesquisadora no departamento de Teologia da FAJE