Nosso corpo é o cárcere da alma?

Pe. Marcos Paulo Pinalli da Costa

O filósofo ateniense Platão, em seus escritos defendia que havia um dualismo entre corpo e alma. Para ele o corpo era a prisão da alma sendo um empecilho dela se elevar a um alto grau de realização pela sabedoria e conhecimento da verdade. Será que procede para nós cristãos? Será que o corpo deve ser desprezado por nós? Então por que fazer penitência e abstinência de carne quando a Igreja pede?

Ouso não concordar com Platão sobre o corpo ser o cárcere da alma. Corpo e alma estão intimamente ligados. Entretanto, defino a morte como ausência da alma no corpo. O corpo é matéria, precisa de alimentos, cuidados e pode ser tocado, quanto a alma, também precisa ser alimentada e cuidada, mas nunca ser tocada, pois é imaterial. No entanto, para nós cristãos católicos e muitas outras denominações religiosas não cristãs a alma é eterna continuando a existir após a morte. Aqui concordamos com Platão.

O que nos instrui as Sagradas Escrituras sobre corpo e alma? Eis algumas citações que pesquisei na Bíblia de Jerusalém e meus comentários: “Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. 27 Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou.” (Cf. Gn. 1, 26-27). Uma vez que, fomos criados à imagem e semelhança de Deus, sendo Ele eterno, nós também o somos.

“Eu sei que meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó: 26 depois do meu despertar, levantar-me-á junto dele, e em minha carne verei a Deus.” (Cf. Jó 19, 25-26). Aqui Jó se refere à ressurreição do corpo. Quanto ao “Meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó”, se refere à ressurreição do próprio Cristo. Este livro não foi considerado apócrifo, não tendo sido rejeitado por Martinho Lutero que desconsiderou outros livros da Bíblia Católica.

“(…) ele, que não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós;”. (Cf. Jo 1, 13-14). Assim, Deus Pai, no Filho, pelo Espírito Santo assumiu nosso corpo humano e veio nos salvar, nascendo da Virgem Maria Nosso Senhor Jesus Cristo. Trata-se da União Hipostática definida em 451 (d.C) no Concílio da Calcedônia pelo Papa São Leão I (Leão Magno) assim destruindo à heresia monofisista ao esclarecer que Jesus Cristo tem duas naturezas, a divina e a humana, como também é um com o Pai e o Espírito Santo. Aqui grande empenho de São Flaviano, Arcebispo de Constantinopla e venerado por nós e pelos católicos ortodoxos que não tem comunhão com o Papa.

São Tomás de Aquino refuta a ideia de Platão de que a alma seja apenas “um capitão de um navio”, isto é, uma “prisioneira do corpo”. Seu fundamento bíblico é: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus? … e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo”. (Cf.1 Cor. 6,19). Entendemos que nosso corpo é sagrado e morada do Espírito Santo pelo sacramento do batismo.

Ainda há quem, como penitência, se fere com chicotadas nas costas e uso do cilício, uma corrente de ferro ou faixas com pontas de ferro para ferir a pele, cujas práticas se remontam aos séculos XII e XIII como mortificação e sacrifício. A Igreja nunca proibiu, mas também se silencia significando não incentivar tal prática. São Pedro nos ensina o que agrada a Deus: “O fim de todas as coisas está próximo. Levai, pois, uma vida de autodomínio e de sobriedade, dedicada à oração. Acima de tudo, cultivai, com todo o ardor, o amor mútuo, porque o amor cobre uma multidão de pecados.” (Cf. 1 Pd. 4, 7-8).  A oração supõe a fé e nos ensina São Tiago: “Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento.” (Cf. Tg. 2,17).

O advento é um tempo penitencial a nos convidar para a segunda vinda de Cristo, assim, o sincero arrependimento, uma boa confissão, o amor ao próximo e a caridade para com os pobres em gesto concreto, nos preparam para a “Parusia” que significa o juízo final. Do que adianta ferir o corpo até tirar sangue como forma de penitência se não há amor ao próximo? Posso até ser julgado, mas na minha opinião, sem o parecer oficial da Igreja, ferir o corpo como penitência, equivale a um ultraje contra o Espírito Santo que habita em cada um de nós.

Como então nos santificar? Ao fiel que não tem restrições alimentares e idade inapropriada, o jejum e a abstinência de carne, são ótimas penitências. Tais restrições nos devem levar a dizer não ao pecado e sim a Deus. De nada valerá se não forem acompanhadas de frequências às missas ou celebrações, comunhão, ainda que seja espiritual e falta de amor-caridade ao próximo. Como gesto concreto lembremos dos pobres contribuindo com doações de alimentos e roupas.   Assim, pergunto: Quem santifica quem? O corpo santifica a alma ou a alma santifica o corpo? Ambos são eternos e inseparáveis esperando a segunda vinda de Cristo para se unirem novamente após nossa morte e ressurreição.

Pe. Marcos Paulo Pinalli da Costa, sacerdote da Diocese de Campos-RJ, mestre em direito canônico, professor e pároco.   

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