O AUTO EXTERMINIO E A VIRTUDE DA ESPERANÇA. AUTOEXTERMÍNIO NO CLERO UMA REFLEXÂO MORAL SOBRE A DESESPERANÇA.
PADRE RAFAEL SOLANO (ARQUIDIOCESE DE LONDRINA PUCPR.)
Preparando um curso sobre suicídio me deparei com a obra do cardeal Walter Kasper quem afirmou: “A esperança é a fonte da nossa sobrevivência, da capacidade de resistir, de ir em frente. […] Não confiamos em algo, mas em alguém. E esta relação com Jesus que sofreu por nós, que morreu e ressuscitou, é a fonte da nossa esperança”.
Há no ambiente do mundo uma constante desesperança que impregna o coração de muitas pessoas entre elas nós membros do clero. Bispos, padres e diáconos sofremos por antecipado aquilo que a esperança como virtude teologal nos ajudaria a superar. Nós não só acreditamos na esperança como também somos pessoas de esperança. Por trás de cada ser humano sempre há uma esperança viva e aberta ao descobrimento de um novo futuro.
Sabemos que o autoextermínio aumenta cada vez mais numa sociedade que se considera de altíssima performance, mas de uma baixa autoestima e valorização. Os índices não só têm aumentado como também as consequências se tornaram cada vez mais destoantes.
Por mais de uma década venho estudando e aprofundando a obras de Robert Sapolsky e Andrew Solomon. Estes dois autores quem tem fornecido ferramentas e instrumentos de grande alcance para tentar descobrir o que é que está acontecendo entre nós homens do sagrado e como poder realizar uma prevenção adequada que permita a todos indistintamente adquirir uma saúde integral suficientemente harmônica e condicente com a opção de vida que realizamos.
Quero lhes propor três itens dentro de uma visão concreta para abrirmos um diálogo sobre o contexto da suicidologia como sistema de análise e estudo prático. Burnout e suicídio.
Desde o mínimo ao máximo esforço podemos perceber que a criatividade foi trocada pela eficácia. Uma alta porcentagem do nosso exercício ministerial tornoumeramente funcional. Ao perder a criatividade o lúdico desapareceu; desapareceu também o prazer pelas pequenas coisas. Muitos bispos e presbíteros sofrem de anedonia constante onde o único prazer advém do que é útil e lucrativo. Alguns preferem se sobrecarregar de atividades que chamam de desafios sendo incapazes de entender que a comunhão também se exercita na capacidade de delegar. Quem não aprende a delegar torna-se uma pessoa workolica.
A toxicidade da eficiência virou uma neurose da produção contante e com isto já não temos mais tempo para viver a contemplação; a reflexão e paz do espírito. Muitas vezes como advertia são João da Cruz no poema X: “A esperança do céu / Tanto alcança quanto espera”. Quanto esperamos e o que mais esperamos tal vez seja a primeira das causas que leva a muitos a se desesperar e perder o rumo da sua própria identidade. Agendas obsoletas e insuficientes que mantem uma fachada e derrubam um homem. As pausas na espera são fundamentais para alcançar a finalidade proposta. Aprender a pausar é sinal de maturidade e contribui para sermos artífices da paz.
Alexitimia e suicídio.
No mundo sensível não existe distanciamento do humano e sim aproximação e intimidade. No clero o humano está – se tornando algo cada vez menos trabalhado. Não falo da dimensão humana do presbítero ou do bispo; falo do que nos torna humanos. Aqui há uma grande e implícita realidade. Homens que não queremos abordar o que há em nós de mais humano o nosso sentir e expressar o que sentimos. Não é um transtorno de personalidade, mas uma condição psicológica em que a pessoa tem uma incapacidade neurológica ou funcional de identificar, nomear e expressar as próprias emoções. Por não entenderem o que sentem, elas também não conseguem decodificar as emoções dos outros, parecendo extremamente frias, racionais e robóticas. Aquilo que popularmente é denominado como “viver no automático”. Quem vive no automático pode perder a vontade mais genuína de viver e de modo especial de se expressar. Decodificar as nossas emoções e sentimentos é fundamental para a nossa vida. O desequilíbrio de muitos na dimensão afetiva encontra-se precisamente aqui. Incapacidade de dar a conhecer o que há de mais profundo manifestando o que sentimos.
É vital expressarmos o que sentimos sem chegar ao ponto de chamar a atenção. Trabalhar a discrição contribui cada vez mais em fortalecer nossa afetividade e sobriedade. Todo exagero sempre leva ao ridículo. Seguindo a proposta de são João da Cruz: “O barulho da seda, espanta as borboletas”.
Borderline e Suicídio.
Uma das patologias mais exigentes na atualidade e que perambula pela nossa vida ministerial é o Borderline. É a patologia mais frequentemente ligada à insatisfação afetiva extrema. Caracteriza-se por um sentimento crônico de vazio, medo desesperador do abandono e uma instabilidade acentuada nos relacionamentos interpessoais. A pessoa oscila rapidamente entre idealizar e desvalorizar o parceiro, gerando constante frustração. A aceitação da frustração tornou-se algo bem distante da vida de muitos bispos e presbíteros. Para muitos quaisquer tipos de embate ou de contradição é simplesmente inviável. Na sociedade do “bemsucedido” são muitas as pessoas que não conseguem lidar com aquilo que parece frustrante. Muitos bispos e presbíteros mudaram a paz interior pelo palco público. A formatação de homens “pop” desgasta a possibilidade de uma vida vivida na simplicidade do cada dia; do que significa passar despercebido ou até viver como um anônimo. As redes sociais e a ingerência digital tornaram-nos homens não públicos e sim publicados. Chegamos ao cumulo de aceitar expressões como super padre, super bispo, mito etc. etc. Com o passar do tempo tudo isto vai esvaziando a interioridade de quem segue Aquele que sempre fugiu quando quiseram lhe proclamar como Rei.
A prática da humildade constante nos ajuda a desaparecer para que Ele apareça e sobretudo para que aceitemos com doçura as nossas constantes frustrações. A frustação acolhida não como um tormento e sim como uma possibilidade sempre ajudará para que sejamos livres e sensatos na hora de vivermos o nosso ministério.
O autoextermínio não é a saída para nenhuma destas possíveis patologias. Sempre teremos alguém por perto para falarmos, partilharmos e dialogarmos sobre o que somos e sentimos.
Ante qualquer pensamento, intenção ou mera elucubração sobre acabar com a sua vida por favor procure alguém; falar é dar o passo definitivo para continuar vivendo.