Diante da Verdade eterna: quando a Alma aprende a louvar

Em vez de reduzir a vida a uma mera sucessão de instantes efêmeros ou a imprevistos circunstanciais, o Cristianismo revela que a jornada do ser humano insere-se em um plano divino transcendental, pessoal e intransferível, comunitário, cuja profundidade abarca a totalidade do tempo, do espaço e o supera infinitamente.

Diácono Adelino Barcellos Filho – Diocese de Campos dos Goytacazes-RJ

O ser humano orienta-se rumo a uma consumação plena, na qual sua liberdade, sua consciência, suas deliberações morais, o pecado e a conversão se revestem de significado eterno, constituindo um hino de grande louvor à Providência Divina. Nessa caminhada existencial, a liberdade não se traduz em mero arbítrio individual, mas sim na capacidade fundamental de escolher a Verdade e aderir ao Bem Supremo, à abundante Graça.

A consciência moral atua como o sacrário interior onde a voz de Deus ressoa, guiando o indivíduo através das complexidades do agir cotidiano. Diante das escolhas humanas, o pecado surge como a ruptura do Amor e do propósito original, ao passo que a conversão representa o ato contínuo de retorno, restauração, recondução e/ou reconciliação com o Criador, que não abre mão do exercício da Liberdade N’Ele.

Cada ato moral e decisão interior ultrapassam o horizonte temporal, adquirindo uma densidade teológica e uma dimensão transcendente. Ao abraçar essa vocação à santidade e à Graça, disponível a todos que O buscam de coração sincero, a existência inteira transfigura-se em uma oferta viva, preparando o homem para a comunhão definitiva.

O Sumo Pontífice Leão XIV, na catequese do dia 19 de agosto de 2026, fez uma excelente exortação ao afirmar que, “Vós, um por um, tornai-vos um coro a fim de que, harmoniosos no acorde e assumindo a tonalidade de Deus na unidade, canteis em uníssono por meio de Jesus Cristo ao Pai, para que Vos ouça e, pelas boas obras que realizais, reconheça que sois membros do Seu Filho”, rumo à Eternidade Feliz.

Com efeito, essa mesma perspectiva é ratificada na constituição pastoral Gaudium et Spes (n. 16): a consciência constitui o santuário interior no qual o homem descobre a Lei Divina, segundo a qual há de ser julgado (juízo particular e juízo final). Ademais, o Concílio salienta um aspecto de suma relevância: ao negligenciar a busca pela Verdade e pelo Bem, a consciência humana sujeita-se a um progressivo obscurecimento em virtude do ‘hábito’ do pecado.

O capítulo VII da Lumen Gentium chama-se justamente: “A índole escatológica da Igreja peregrina e a sua união com a Igreja celeste.” O Concílio ensina que a Igreja somente encontrará sua consumação definitiva na glória celeste. Enquanto isso, permanece peregrina, vivendo entre a realidade presente e a esperança da realização definitiva, o “já – ainda não”.

Nesse contexto, destaca-se uma formulação de suma relevância: a restauração e recondução  prometidas teve seu início em Jesus Cristo, Palavra Eterna do Pai, prossegue por meio da atuação do Espírito Santo e concretiza-se na Igreja, enquanto os fiéis caminham firmes na esperança rumo à sua consumação futura.

O Pai Celestial apraz-Se em servir-Se de instrumentos limitados, convocando os fiéis às mais diversas vocações missionárias. A existência terrena constitui o momento decisivo perante a Verdade, ao passo que a eternidade bem-aventurada representa o ápice e a realização plena dessa escolha.

O Concílio afirma que Deus deixou o homem entregue à sua própria decisão para que busque livremente o Criador e alcance a plena e bem-aventurada perfeição. Essa liberdade fundamental não se reduz a um mero livre-arbítrio individualista ou à simples capacidade de escolha entre opções cotidianas; trata-se, em sua essência mais profunda, do chamado vocacional para aderir voluntariamente à Verdade Divina e ao Bem Supremo.

Ao atuar como o centro vital da responsabilidade moral, a liberdade humana permite que a busca por Deus seja um ato de autêntica entrega amorosa, conferindo valor eterno a cada decisão consciente. Assim, ao trilhar o caminho da Graça e corresponder ao Projeto criador, o ser humano realiza plenamente sua dignidade, transformando sua própria existência em um caminho de comunhão com o Pai e de aperfeiçoamento espiritual, de louvor.

Consequentemente, a Liberdade que se separa da Verdade acaba contradizendo sua própria finalidade.  A “índole escatológica” tratada no capítulo VII da Lumen Gentium (48-51), de maneira especial os números (49-51) é particularmente importante porque apresenta a Igreja em sua dimensão tripla: há os que peregrinam na terra (Igreja Peregrina), os que estão sendo purificados (Igreja Padecente – Purgatório) e os que já estão glorificados (Igreja Triunfante), todos unidos no mesmo Amor Esponsal de Deus.

Dessa forma, a escatologia supera a visão simplista de “céu ou inferno”. Toda a Igreja caminha para a consumação final; a Fé de Jesus Cristo não aliena, mas revela a realidade a partir do Pai e da ação do Espírito Santo. Conforme o Catecismo da Igreja Católica (CIC – § 1783–1794 e 1849–1850), o pecado, por mais “prazeroso” que seja, atenta contra a razão, a verdade e a reta consciência, afastando o coração humano de Deus, Uno e Trino.

O destino derradeiro do ser humano e do universo, o qual abrange temas fundamentais como a morte, o juízo final, a ressurreição e a consumação do Reino de Deus (a realidade escatológica), compreende o Ano Litúrgico. Este, conforme ensina o Papa Leão XIV, “deve ser entendido como uma atualização constante da obra da salvação, que Cristo realiza na história”; do mesmo modo, enfatiza-se que toda “assembleia não pode ser substituída por uma presença meramente virtual, nem se reduz a uma reunião meramente passiva.”

Por conseguinte, a proliferação de enfermidades emocionais pode decorrer, de modo progressivo, da privação do convívio presencial, do afeto físico e de uma acolhida autêntica, sincera e isenta de dissimulações. O Louvor e o Canto Litúrgico deixa de ser apenas uma manifestação emocional da Fé de Jesus Cristo. Ele é uma resposta da criatura à Verdade de Deus.

Ao reconhecer Deus como seu Criador e Salvador, o ser humano expressa sua resposta fundamental por meio da adoração, do louvor e da Ação de Graças (ευχαριστια). Essa perspectiva é reiterada por Leão XIV, ao enfatizar que “o princípio inspirador e o quadro de referência essencial de toda a ação pastoral é o Ano Litúrgico”.

Cumpre salientar, destarte, a profundidade do canto litúrgico, o qual une o fiel à Oração da Igreja. Por intermédio da Liturgia — exercício do sacerdócio de Cristo no qual a santificação do homem é significada e realizada —, faculta-se à Igreja peregrina a antecipação do Louvor Celeste.

Diferente da visão efêmera da vida, a fé cristã insere a existência humana em um plano divino transcendental e comunitário. A música sacra e o canto, integrados à Palavra e às normas litúrgicas, unificam o fiel à oração da Igreja, elevando a mente ao Sagrado e antecipando o louvor celestial.

Assim, integrado a este desígnio superior, o ser humano supera a efemeridade temporal, de modo que a liturgia harmoniza a exaltação terrena à Jerusalém celestial, prefigurando e realizando a Comunhão com os Anjos, Santos e à Virgem Maria, viabilizando a vivência antecipada da eternidade no curso da história, “por Cristo, com Cristo e em Cristo” (doxologia de elevação e recondução).

Ó Deus da Glória, Senhor do céu e da terra, Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre e Vós, Virgem Maria, Senhora da Glória, nossa Rainha, ponho minha vida em vosso Amor Esponsal. Guiai meus passos no bem, livrai-me de todo mal, do maligno e enchei meu coração com Vossa Paz hoje e sempre. Amém.

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