CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026 E RACISMO ESTRUTURAL
Para nós que cremos nas sagradas escrituras podemos nos fundamentar no livro do Genesis narrando a criação. “Deus criou o homem à sua imagem criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher.” Cf. Gn 1,27. Somos todos filhos de Deus e por Ele criados. Prova-nos a miscigenação o Antigo Testamento quando Hebreus se casavam com mulheres de outros povos considerados pagãos. No Novo Testamento, São Mateus e São Lucas fazem referência à genealogia de Jesus e citam Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba (rainha), mãe do rei Salomão, esposa do rei Davi ainda que viveram em adultério após o assassinato de Urias, seu “ex-marido”.
Quanto a nossa miscigenação e o preconceito racial, reflitamos. O Brasil, ainda que, a história nos ensina, os portugueses chegando aqui, nesta terra acolhedora e pacífica em 1500, tivemos vários nomes, cerca de 9, hoje um país continental. São alguns dos nomes: Pindorama (1500); significando a “Terra das Palmeiras”, Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz e finalmente Brasil em 1527. Nossos habitantes originários eram os indígenas. Vieram depois os africanos escravizados e após a abolição outros europeus para suprimirem a falta de mão de obra nas lavouras e mais tardiamente os asiáticos. Assim surgiu o nosso DNA e com poucas exceções somos um povo plurirracial e pluricultural. Portanto para o preconceito racial tolerância zero.
Infelizmente por volta de 1531 chegaram os primeiros escravos no Brasil, uma vez que, os indígenas não se renderam a serem escravizados tendo como defensor, São José de Anchieta que embora não se focou contra a escravidão negra deixa bem claro sua postura contra um novo tipo de escravidão, a dos nossos nativos. Infelizmente muitos indígenas foram exterminados por doenças como sarampo, varíola, rubéola, escarlatina, tuberculose, febre tifoide, malária, disenteria e gripe. Conforme aconteceu com a Tribo Goytacá aqui na diocese.
O Império brasileiro pela “Lei Aurea” aos 13 de maio de 1888 foi o último país do continente americano a abolir a escravatura. Ótimo! Infelizmente por pressões de movimentos abolicionistas e defensores da causa, dentre outros se destacando um farmacêutico conhecido mais como jornalista, o Campista José do Patrocínio. A solução não era só a liberdade. Neste contexto, a liberdade sem a igualdade favoreceu o racismo estrutural e político só considerado crime em 1988, ou seja, 100 anos depois. Os negros não podendo ocupar ou residir nos centros das cidades e sem possuir terras foram “obrigados”. de certa forma, a ocuparem áreas afastadas que se tornaram as favelas de hoje que abrigam não só os negros, mas muitos outros excluídos da sociedade independente da origem ou cor da pele.
Para o tempo da nossa quaresma neste ano a CNBB nos propõe refletirmos sobre o problema da moradia. Cujo tema é “fraternidade e moradia” e lema bíblico “Ele veio habitar entre nós” cf. Jo 1,14. Uma reflexão social que exige casas populares e acesso a moradias dignas, água potável, via de acesso e posto de saúde. Dou total apoio à Campanha da Fraternidade e como sacerdote preocupado com os sem moradias, não me iludindo que. as favelas não deixarão de existir. Poderia ser nossa oferta transformada em um novo bairro em qualquer cidade denominado D. Helder Câmara ou Santa Dulce (Imã Dulce da Bahia ou Dulce dos Pobres) havendo mais de um bairro em cidades distintas, conforme a CNBB escolher. Apenas uma sugestão. Talvez a CNBB já tenha projeto concreto, mas não tenho conhecimento. Assim, caríssimos irmãos, abraço a Campanha da Fraternidade deste ano e os convido a estar conosco. Aluguel social nossos governos oferecem, porém casa própria geralmente com financiamento pode deixar famílias vulneráveis e endividadas perdendo paro o financiamento realizado.
Os preconceitos sociais e racismo estrutural ainda existem aqui. Neste período quaresmal a nossa Igreja viva e se posiciona ao lado dos sem casa para defender a digna moradia. Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu em Belém, foi para o Egito como refugiado. cresceu em Nazaré e por fim terminou sua vida em Jerusalém, onde morreu e ressuscitou. Além de percorrer várias cidades, Jesus Cristo nunca teve residência própria. mas Ele, “O Verbo se fez carne e habitou entre nós.”. (Cf. Jo 1,14). Para nós a quaresma não é só tempo de penitência, mas reflexão social.
Autor: Pe. Marcos Paulo Pinalli da Costa, sacerdote da Diocese de Campos-RJ e mestre em direito canônico, Vigário Judicial Adjunto e professor no Instituto “Sedes Sapientiae”.