Há dores que não fazem barulho

Pe. Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor da Pastoral da Comunicação da Diocese de Nova Friburgo

Elas não chegam gritando, nem pedindo espaço. Instalam-se devagar no coração e aprendem a se esconder atrás de gestos cotidianos, de palavras educadas e, muitas vezes, de um sorriso que insiste em permanecer mesmo quando a alma está cansada.

Vivemos cercados de pessoas que parecem estar bem. Pessoas que trabalham, conversam, servem, aconselham, ajudam. Pessoas que continuam caminhando mesmo quando, por dentro, algo já começa a se quebrar. Talvez porque tenhamos nos acostumado a olhar apenas a superfície.

Perguntamos “está tudo bem?” quase como uma formalidade, sem esperar realmente uma resposta. Seguimos apressados, cada um carregando suas próprias urgências, sem perceber que ao nosso lado existem corações atravessados por dores silenciosas.

Mas o Evangelho mostra um olhar diferente. Jesus nunca se contenta com as aparências. Quando encontra o paralítico junto ao tanque de Betesda, Ele não vê apenas um doente entre tantos outros. Ele para, aproxima-se e faz uma pergunta desconcertante: “O que queres que eu te faça?” (Jo 5,6).

A pergunta parece óbvia. Mas não é. Jesus não presume a dor do outro — Ele a escuta.

No meio de uma multidão barulhenta, Ele também percebe um grito que quase ninguém quer ouvir. À beira do caminho, um cego insiste em clamar por misericórdia enquanto muitos tentam silenciá-lo. Mas Jesus manda chamá-lo e pergunta novamente: “Que queres que eu te faça?” (Mc 10,51).

Jesus escuta aquilo que o mundo tenta calar. E quando todos estão ocupados em julgar, Ele faz algo ainda mais profundo. Diante da mulher acusada e exposta à vergonha pública, enquanto mãos já se preparam para atirar pedras, Jesus se inclina, levanta o olhar e diz: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.” (Jo 8,7).

Naquele momento, Ele não vê apenas uma culpa. Ele vê uma pessoa. O olhar de Jesus sempre atravessa as aparências. Ele alcança aquilo que os outros não percebem: a dor escondida, a solidão que ninguém nota, o grito sufocado pela multidão. Talvez seja exatamente isso que esteja faltando em nosso tempo: olhos que saibam ver.

Estamos cercados de gente cansada. Pessoas que carregam batalhas que não aparecem nas fotografias nem nas conversas rápidas. Pessoas que continuam caminhando enquanto o coração luta silenciosamente para não desistir. E, no entanto, continuamos exigindo muito e escutando pouco. Julgamos rápido, compreendemos devagar. Falamos muito, mas raramente paramos para perguntar de verdade: Como está o seu coração?

A verdadeira compaixão — aquela que o Evangelho nos ensina — nasce justamente aí. Não é pena distante, nem discurso bonito. É a coragem de se aproximar, de escutar, de perceber o outro antes que o seu silêncio se torne insuportável.

Porque muitas dores não gritam. Elas apenas silenciam. Talvez a conversão mais urgente que precisamos viver seja esta: aprender novamente a olhar. Olhar como Jesus olhava. Olhar além das aparências. Olhar até que o outro deixe de ser apenas mais um rosto na multidão e volte a ser alguém cuja vida importa.

Talvez assim descubramos algo essencial: que muitos dos que parecem mais fortes são também aqueles que mais precisam ser sustentados.

E que, às vezes, um olhar atento, uma escuta verdadeira e uma presença sincera podem salvar um coração que já estava cansado demais para continuar pedindo ajuda.

Pe. Aurecir Martins de Melo Junior
Assessor da Pastoral da Comunicação

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