Benedito Ruy Barbosa, na minha vocação e sua visão social

Quando eu soube do falecimento do Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos. Claro que me entristeci, me emocionei e faz parte de nossas vidas, sobretudo os que temos mais de meio século. Na minha adolescência quase tive contato com ele na antiga TV Manchete-RJ. Nesta época eu tinha um primo que lá trabalhava de nome Cláudio Garcia. 

Sempre gostei de artes cênicas, ou seja, teatro. Havia na minha cidade o Teatro Amador de Natividade (TAN), hoje o grupo tem outro nome. Desde aquela época eu gostava de fazer representações de trabalhos também na escola Francisco Portella, a única que estudei. Recordo de um trabalho sobre o Nordeste que criei um personagem nordestino para se apresentar numa “televisão”, neste caso o cenário era feito com uma caixa de geladeira de papelão. 

Natividade hoje é conhecida como a Atenas do Norte Fluminense. Inclusive na sua bandeira vemos as máscaras da arte. Pude atuar em três peças, “Incelença”, autor Luiz Marinho e diretor Luiz Mendonça. Esta peça A outra peça que atuei era “Acima de tudo o Amor”, um romance que, quando o meu personagem entrava em cena fui chamado a tenção pelo autor e diretor José Alceu, meu vizinho na época, por transformar o romance em comédia. Também atuei na peça musical “Canção do Subdesenvolvido” do autor Carlos Lyra. Cujo parte da Letra era: “As nações do mundo para cá mandaram os seus capitais tão “desinteressados” As nações, coitadas, queriam ajudar, não é? E aquela “Ilha Velha” não roubou ninguém…” Era uma crítica social. Meu personagem era um bancário reclamando do salário. Pelo meu ingresso no Seminário em 1991 me ausentei do município e não sei mais como continua o Teatro na cidade. 

Nesta época que fazia teatro acompanhava a novela Pantanal, exibida na antiga TV Manchete em 1990 e eu acompanhei seus capítulos. Quase como continuação a novela Ana Raio e Zé Trovão, ambas do autor Benedito Ruy Barbosa. Cheguei a ir para a capital, o Rio de Janeiro para fazer um teste, mas não aconteceu, pois a emissora temia atentado por estar cobrindo naquele ano a guerra do Golfo, o Kwait e o Irã sob poderio de Saddan Hussein.  Isto aconteceu entre 1990 e 1991. 

Em nossas vidas devemos continuar a fazer planos, mas Deus sabe de tudo.  Nas férias de janeiro de 1991, o meu amigo que era seminarista, Pe. Gilson à frente do Colégio Eucarístico foi me visitar em casa. Eu já havia comentado com ele o meu desejo de ir para o seminário. Assim, ingressei com 15 anos no seminário e lá celebrei meus 16. Agradeço in memoriam a Dom Roberto Guimarães que na época era Pe. Roberto, com uma Kombi nos levando-nos de Itaperuna para Campos. Agradeço aos Padres Dehonianos Oscar Longen e Alberto Huber da Congregação do Sagrado Coração de Jesus (SCJ) e a Dom João Corso, que me recebeu no seminário. Também às irmãs Salesianas do Auxiliadora que nos admitiram com bolsa integral e fomos naquela época os primeiros homens a se formarem professor (Curso Normal) nesta Instituição, pois os meninos faziam o científico e o normal era só as meninas. Nós como padres deveríamos ser professores conforme o Pe. Roberto (Dom Roberto Guimarães) pensava.

Enfim, o Benedito Ruy Barbosa cumpriu sua missão retratando o Brasil religioso e do interior. Este autor fez grande diferença recuperando a história inspirada dos meus antepassados italianos com as novelas “O Rei do Gado” em 1996, “Terra Nostra” em 1999 e “Esperança” em 2002. Este Dramaturgo sempre voltado para questões sociais teve exibida a sua última novela “O Velho Chico”, o Rio São Francisco, quando morreu afogado o ator Domingos Montagner que interpretava o “Santo”. Esta novela abordava questões ecológicas como a disputa por terras e águas no sertão brasileiro. 

Enfim, o dramaturgo Benedito Ruy Barbosa sempre esteve ao lado social do povo brasileiro e em 1971 focou na realidade rural brasileira contra o governo militar abordando reforma agrária e educação com a obra “Meu pedacinho de chão” com cenas censuradas. Que Benedito Ruy Barbosa seja referência para outros autores que não tenham medo de apresentar em suas obras a história e a atualidade social com suas desigualdades a serem superadas.

Autor: Pe. Marcos Paulo Pinalli da Costa, Pároco e Vigário Judicial Adjunto da Diocese de Campos-RJ. 

Posts Similares

Deixe um comentário