A Fé que busca Deus ou apenas os seus dons?
Na conclusão da homilia de Jesus concernente ao envio dos Apóstolos, Ele expõe a finalidade da vida sacerdotal, explicitando que o Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, além de exercer o múnus sacerdotal, constitui-se também como vítima (confiança e entrega total de si mesmo).
Diác. Adelino Barcellos Filho – Diocese de Campos/RJ.
O itinerário do sacerdócio de Cristo consiste em seguir a Sua própria trajetória: “Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós […] Se me perseguiram, também vos hão de perseguir.” (João 15, 18-20).
Em uma sociedade caracterizada pela busca por resultados imediatos, a experiência religiosa outrossim corre o risco de ser reduzida à mera procura de soluções para os problemas da vida. Muitas pessoas aproximam-se de Deus motivadas por necessidades imediatas, como cura, emprego ou superação de crises. Essa fé carnal, utilitarista ou interesseira busca apenas benefícios temporais, permanecendo superficial e sem produzir conversão.
O Senhor acolhe essas súplicas com amor paternal, mas o Evangelho exorta ao amadurecimento da fé, “como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram!” (Lucas 24, 25), tornando-a capaz de Amar a Deus Pai por Ele mesmo e de perseverar na confiança e fidelidade. Gerada pelo Espírito Santo, a Fé espiritual conforma o fiel à obediência de Cristo, assume a Cruz, vive da Graça e prioriza a Vontade do Pai, discernindo os movimentos mais íntimos do coração.
Ao diferenciar o homem “carnal” daquele que é guiado pelo Espírito (cf. 1Cor 2,14-15; 3,1-3), São Paulo nos oferece uma valiosa chave de leitura. O Apóstolo não propõe a existência de duas ‘Fés’ distintas, mas indica que a mesma Fé pode se manifestar de forma imatura ou estar totalmente receptiva à atuação do Espírito Santo. Enquanto o cristão carnal se conduz por critérios puramente humanos e terrenos, o cristão espiritual permite que sua vida seja plenamente transformada pela Graça.
A Fé em seu estágio de imaturidade evidencia-se quando Deus assume uma posição secundária, sendo buscado precipuamente como resposta a demandas imediatas. Sob esse prisma, a prática da oração tende a reduzir-se a meras petições, a participação comunitária passa a subordinar-se a oscilações emocionais e a perseverança esmaece diante das provações. Trata-se, por conseguinte, de uma fé que carece de amadurecimento.
Em contrapartida, a Fé Espiritual deriva do encontro pessoal com Cristo, amadurecendo por meio da escuta da Palavra, da celebração dos Sacramentos e do exercício da caridade. Conquanto não suprima as vicissitudes da existência humana, tal fé proporciona uma nova perspectiva para enfrentá-las. Sob esse prisma, o discípulo compreende que o seguimento de Jesus pressupõe o acolhimento da Cruz, imbuído da certeza de que a Ressurreição detém a palavra final.
Em alocução dirigida aos jovens do Iraque em 8 de julho de 2026, o Papa Leão XIV enfatizou: “vocês devem ser a luz de Cristo em meio a uma escuridão que, às vezes, pode parecer avassaladora. Não tenham medo! E não pensem que estão sozinhos nessa tarefa. Estou com vocês; a Igreja está com vocês”; “É por isso que é tão importante dedicar tempo todos os dias à oração e nos aproximarmos de Deus através dos sacramentos, especialmente da Confissão e da Eucaristia”.
O Catecismo da Igreja Católica assevera que a Fé constitui um dom de Deus (153) e, simultaneamente, um ato humano de livre resposta à Graça, o qual demanda contínuo amadurecimento (154; 162). Semelhante a uma semente, a virtude da Fé requer o cultivo cotidiano por meio da oração, da Eucaristia, da Reconciliação e do testemunho da comunidade cristã.
Esse dinamismo fundamenta-se na confiança em Deus e na adesão às verdades por Ele reveladas, não se limitando a meros sentimentos. A maturidade espiritual encontra nos santos as suas maiores testemunhas. A fidelidade deles provou-se não somente nos dias de consolação, mas igualmente nos períodos de sofrimento, de indefinição, de incompreensão e diante do próprio “silêncio de Deus”. Eles compreenderam que a dádiva suprema do Senhor transcende as graças obtidas, encontrando-se na íntima comunhão com Jesus Cristo.
Como uma autêntica escola de santidade, a única Igreja de Jesus Cristo (811) convoca cada fiel a renunciar aos critérios do egoísmo, da vaidade, da arrogância, da prepotência e da autossuficiência. Esse processo de revestir-se dos sentimentos de Cristo não ocorre de maneira súbita, mas configura uma conversão diária e progressiva, constantemente sustentada pela ação do Espírito Santo.
A principal citação bíblica sobre “atingir a maturidade de Cristo” está em Efésios (4,13): “até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.”
Nesse trecho, o apóstolo Paulo exorta a comunidade a crescer espiritualmente para superar a “infância espiritual”, que é facilmente influenciada por falsos ensinamentos e por falsas ou equivocadas doutrinas. Na perspectiva católica, essa maturidade não é apenas intelectual, mas uma transformação de vida que leva o cristão a Amar, agir e pensar como Jesus.
A expressão “Cristo é tudo e está em todos” (Colossenses 3,11) indica a superação das divisões humanas pela graça de Jesus. Na Epístola aos Colossenses, o apóstolo Paulo ressalta que o Batismo (participação no sacerdócio comum dos fiéis) reveste o cristão de uma “nova vida”, eliminando barreiras culturais, étnicas e sociais, visto que todos constituem um só corpo unido em Cristo.
Isso significa que Cristo passa a habitar no batizado, tornando-se o centro de sua vida. Assim, o cristão deve buscar a mesma Fé de Jesus, caracterizada pela total obediência à Vontade do Pai: “o Filho de si mesmo não pode fazer coisa alguma; ele só faz o que vê fazer o Pai” (João 5, 19).
A Fé espiritual de Jesus Cristo é apresentada como adesão total à vontade divina, e não apenas como crença intelectual (carnal): “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! (carnal) Contudo, não seja feita a minha Vontade, mas a Tua.” (Lucas 22, 42)
A Fé de Jesus Cristo é o modelo perfeito para a Fé do cristão, sendo entendida como uma adesão total à vontade divina e perfeita obediência ao Pai, e não apenas como uma crença intelectual ou carnal. Por este motivo, devemos pedi-la continuamente, desejá-la com profunda devoção e suplicar a Graça de possuí-la, para que Cristo habite em nosso coração e se converta no centro de nossa existência.
Na conclusão da homilia de Jesus concernente ao envio dos Apóstolos, Ele expõe a finalidade da vida sacerdotal, explicitando que o Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, além de exercer o múnus sacerdotal, constitui-se também como vítima (confiança e entrega total de si mesmo).
Assim, nossa vida cristã deixará de ser apenas uma resposta às circunstâncias e tornar-se-á um testemunho alegre, perseverante e fecundo do Evangelho, capaz de iluminar o mundo com a esperança que nasce do próprio Jesus Cristo.
Senhor Jesus Cristo, reconheço Vossa grandeza e agradeço pelo dom da vida e Vosso amor. Humildemente clamo: Senhor, eu creio, mas aumentai em mim a Vossa Fé! Dai-me a Graça de confiar em Vossos desígnios, vencendo o medo para crescer na intimidade convosco. Fortalecei minha esperança, renovai meu espírito e guiai meus passos à Luz do Vosso Evangelho.
Minha Mãe Maria sempre Virgem, uni-me a Vós e tornai minha confiança mais intensa diante das fraquezas. Nossa Senhora da Confiança, dai-me forças e derramai do Céu vossas bênçãos maternais sobre vossos filhos. Amém.
São Bento, rogai por nós!